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Mídia e Política no Brasil: o papel do jornal O Globo nos impeachments de Fernando Collor e Dilma Rousseff à luz dos conceitos de sistemas de mídia e paralelismo político

Por Deivison Santos*

Pablo Pimentel e Jamil Marques se propõem a responder à seguinte questão: como o jornal O Globo abordou os processos de impeachment de Fernando Collor, em 1992, e Dilma Rousseff, em 2016, em seus editoriais? Eles buscam identificar quais foram os argumentos mobilizados pelo periódico para dar suporte as suas posições institucionais no decorrer das crises que levaram à retirada dos governantes, assim como analisar as possíveis diferenças nas posturas editoriais da publicação comparando os dois casos.

Os pesquisadores justificam a importância do estudo destacando que:

– A investigação possibilita atualizar as pesquisas sobre sistemas midiáticos tendo em vista as características do cenário latino-americano, em especial a partir da aplicação dos conceitos de sistema de mídia e paralelismo político para além de países localizados na Europa Ocidental e na América do Norte;

– Defendem também que o estudo é uma oportunidade de entender as particularidades presentes especificamente no caso brasileiro, evidenciando o equívoco de se considerar a América Latina como uma região dotada de um ambiente midiático homogêneo;

– Em terceiro lugar, eles dizem que Hallin e Mancini (2004), em seu hoje clássico estudo sobre sistemas de mídia, ofertam muita atenção às notícias, não privilegiando os editoriais enquanto indicadores dos atributos e alinhamentos das empresas jornalísticas (lacuna que os autores se propõem a preencher, diga-se);

– Por fim, eles afirmam que os estudos em Jornalismo precisam aprofundar ainda mais a ideia de “des-ocidentalização” (isto é, a compreensão de fenômenos e características e a elaboração de conceitos e teorias que transcendam o universo dos países mais desenvolvidos, situados, sobretudo, no Norte Global).

Literatura, metodologia e resultados

A revisão de literatura traz um panorama acerca da relevância do Grupo Globo no contexto midiático e político brasileiro e destaca a importância dos editoriais enquanto textos que apontam a disposição das instituições midiáticas em atuar politicamente se alinhando com agendas de grupos político-econômicos específicos. Em seguida, há uma contextualização dos processos que levaram às saídas de Collor e Dilma, enfatizando os imbróglios políticos e econômicos de cada período.

Do ponto de vista metodológico, os autores fazem uso de Análise de Conteúdo para investigar 191 editoriais do jornal O Globo. Desse total, 25 editoriais foram coletados no período do impedimento de Collor (do dia da admissão do pedido de impeachment no Congresso até uma semana depois da retirada do líder político) e 166 foram coletados no período do impedimento de Dilma (novamente, do dia da admissão do pedido de impeachment no Congresso até uma semana depois da retirada da mandatária). A seleção do corpus foi feita através da utilização de palavras-chave. O livro de códigos aplicado é tributário do trabalho de Marques, Mont’Alverne e Mitozo (2019). Foram realizados testes de confiabilidade entre os codificadores e os resultados foram satisfatórios.

Em se tratando dos resultados, em primeiro lugar, nota-se maior interesse de O Globo em tratar da retirada de Dilma do que da de Collor. No caso de Collor, percebe-se que o jornal se mostrou favorável à sua retirada, não ofereceu muita ênfase nas normas legais, discutiu temas relacionados a práticas de corrupção no governo e, dentre as consequências do impeachment, mostrou-se preocupado com a instabilidade econômica. No caso de Dilma, o jornal se mostrou mais ativo no debate, defendendo a retirada da mandatária (tendo como motivo, sobretudo, a situação econômica do país) e alegando que o impeachment e a subsequente posse de Michel Temer (MDB) facilitariam as mudanças e reformas econômicas necessárias.

Os pesquisadores também promovem alguns testes de diferença de médias que reforçam os achados. Os dados oferecem mais subsídios para a afirmação de que, embora o jornal tenha apoiado os dois impedimentos, ele se mostrou mais ativo no caso de Dilma, sustentando suas posições, acima de tudo, a partir de argumentos econômicos.

Por conseguinte, Pablo Pimentel e Jamil Marques elaboram uma pertinente discussão sobre as descobertas da pesquisa. Os autores assinalam que depois de ter apoiado Collor, em 1989, o jornal O Globo demonstrou resistência em endossar a deposição do mandatário, em 1992, mesmo que o tenha feito (porém de forma mais tímida se comparado com o caso de Dilma). Mais interessante foi a ênfase do jornal na defesa de uma agenda liberal e “modernizante” em ambos os processos. Com base nesses aspectos, e tendo em vista a literatura sobre sistemas de mídia e paralelismo político (Hallin e Mancini, 2004; Seymour-Ure, 1974), os autores argumentam que é necessário ir além da dimensão política do fenômeno do paralelismo, incluindo fatores econômicos em sua discussão – considerando, assim, novas formas de conexões entre mídia e política que se adequem melhor a contextos “não-ocidentais”.

Segundo eles, as conexões entre mídia e política poderiam acontecer não por vínculos ideológicos com partidos ou atores políticos específicos, mas sim em razão de agendas econômicas. Os pesquisadores sugerem, então, três outras possíveis formas de paralelismo: paralelismo de ocasião, quando os jornais se alinham a grupos políticos em situações muito particulares; paralelismo de agenda, em momentos em que as empresas jornalísticas são norteadas por agendas como a econômica (a exemplo da defesa da implementação de políticas neoliberais); e paralelismo de coalizão, quando os jornais apoiam um líder ou governo em particular somente enquanto ele é capaz de entregar projetos políticos que interessam à instituição midiática.

Em geral, o artigo é muito interessante e os autores são cuidadosos com a construção do problema e com as justificativas de cada aspecto do trabalho. Entretanto, o debate sobre sistemas de mídia e “des-ocidentalização” acaba sendo tão promissor e chamando tanto a atenção no início da empreitada que a defesa da importância dos editoriais acaba ficando em segundo plano. De todo modo, trata-se de uma leitura muito agradável e que abre caminhos para futuros estudos interessados em entender os sistemas midiáticos e as relações entre mídia e política em nações em desenvolvimento a partir dos atributos das próprias nações, e não da proximidade que essas possuem em relação a realidades estrangeiras.

REFERÊNCIA PRINCIPAL

PIMENTEL, P.; MARQUES, F. P. J. De-westernizing media parallelism: How editorial interests unfold during impeachment crises. Journalism Studies, v. 22, n. 3. P. 1-23, 2021.

REFERÊNCIAS COMPLEMENTARES

HALLIN, D. C.; MANCINI, P. Comparing media systems: Three models of media and politics. New York: Cambridge University Press, 2004.

MARQUES, F. P. J.; MONT’ALVERNE, C.; MITOZO, I. Editorial journalism and political interests: Comparing the coverage of Dilma Rousseff’s impeachment in Brazilian newspapers. Journalism, p. 1-20, 2019.

Seymour-Ure, C. The Political Impact of Mass Media. London, UK: Constable, 1974.

* Graduado em Ciências Sociais, com habilitação em Ciência Política, pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Mestrando do Programa de Pós-graduação em Ciência Política da UFPR. Membro do Grupo de Pesquisa em Comunicação, Política e Tecnologia (PONTE/UFPR) e do Grupo de Pesquisa Discurso, Comunicação e Democracia (DISCORD/UTFPR). Bolsista Capes.

As opiniões expressas pela(o)s autora(e)s pertencem a ela(e)s e não refletem necessariamente a opinião do Grupo de Pesquisa e nem de seus integrantes.

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